domingo, 26 de novembro de 2023

Os segredos do pequeno Mateus


 

Eu tenho um segredo no meu bolso! Foi assim que o Mateus, meu neto, o pequeno falador, rompeu o silêncio dentro do carro. Todos ficaram curiosos. Ele é instigante. Estávamos voltando da casa de seus bisavós, em comemoração do aniversário de 91 anos do biso Oswaldo.

É um elefante? eu perguntei. Ele disse, claro que não. É um chiclete mastigado? Não é vovô. Então dá uma pista de como ele é, Roberta a mamãe dele também curiosa disparou.

É um retângulo, ele revelou. Então é uma caixa de fósforo usada? Eu perguntei. Ele respondeu que não e nem caberia no meu bolso. Insisti e disse que era um papel e ele, novamente negou, mas comentou que todos nós gostávamos muito do que estava no bolso dele. Então sua avó afirmou, é dinheiro. Ele ficou mudo.

Em seguida, um pouco tímido, ele disse que ganhou da bisavó e ainda revelou que o presente do irmão Gabriel estava no seu outro bolso. Segredo em dose dupla.

Mateus gosta de revelar segredos. Não consegue guardá-los. Foi assim, tempos atrás, em um almoço em casa, quando eu falei para ele que a sua outra avó era tagarela, mas que ele não contasse para ninguém. Ele, vagarosamente, foi chegando perto da sua mãe e, bem baixinho, no ouvido dela, com cuidado para que eu não o notasse, revelou mais um segredo.

Segredos infantis tem prazo de validade curta, mas são empolgantes. Lembro de quando a professora perguntava para a classe, quem teria jogado uma bolinha de papel e todos os alunos, sabendo quem foi, ficavam em silêncio entreolhando-se. Tinha também o segredo de confidenciar para um amiguinho que gostava de uma certa menina, que logo, era revelado para os outros da turma e você não ficava sabendo. Em casa os pais compravam presentes para o aniversário das mães e só falavam para os filhos, que raras as vezes não eram revelados antes da data.

O tempo vai passando, e os segredos vão ficando mais importantes, complicados, difíceis e até perigosos se revelados. Há segredos que se divulgados, podem prejudicar as pessoas, como também o inverso é verdadeiro.

Crescer é complicado! Qual o segredo em se manter criança? Esse, certamente é um dos grandes segredos da vida. Talvez, esse grande segredo seja o de não guardar segredos.

Guarde esse segredo!

Marcos A F Franco

Novembro 2023

domingo, 12 de novembro de 2023

Degustando cerveja no deserto


 

A primeira vez que visitei Dubai, estava acompanhado de outros compatriotas de diferentes estados brasileiros. Cada qual deles, carregando suas culturas, costumes, forma de falar e o seu modo, inconfundível de agir, característico de cada região de origem.

Tinha paulista preocupado com o cumprimento dos horários da excursão, tinha gaúcho buscando água quente para o seu chimarrão, tinha mineiro procurando o pão de queijo, tinha baiano tentando visitar igrejas e os cariocas desapontados por não encontrarem um boteco. Todos eles diferentes um do outro, e mais ainda em relação ao jeito de ser do povo árabe, habitantes dessa cidade-emirado dos Emirados Árabes Unidos, a magnífica Dubai.

Assim que desembarcamos do avião, pudemos admirar a imensidão e a suntuosidade do aeroporto. É um aeroporto HUB, que serve como centro de distribuição de milhares de voos entre o ocidente e o oriente.

Ao passarmos pela inspeção de segurança, nos deparamos com agentes barbados e utilizando o seu característico kufiyya, o famoso lenço branco ou xadrez, utilizado na cabeça, e que originariamente servia para proteção do vento do deserto. Uma marca do povo local. Eram homens fortes e sérios, não distribuíam sorrisos de boas-vindas.

Quando, saímos do aeroporto recebemos uma acalorada recepção do sol. Em Dubai chove em média 30 dias por ano e a temperatura, na sombra, pode chegar a 45 graus centígrados. Compreendemos o porquê da vestimenta da cor branca, utilizada pela maioria dos poucos mais de 2 milhões de emiradenses. Os meios de transportes são equipados com ar-condicionado, especialmente o luxuoso metro de superfície.

Em Dubai fica patente o sangue mercador dos árabes. Você encontra centenas de suqs, mercado para os brasileiros. Existem diversos suqs de ouro, tapetes, roupas, alimentos e frutas secas. Há também 2 shoppings centers imensos, frequentados por turistas de todo o mundo.

A bebida mais consumida pelos árabes é o chá. Eles o ingerem durante todo o dia e durante as refeições. A bebida alcoólica é proibida, sendo permitido o seu consumo apenas nas residências e em alguns hotéis internacionais, mediante o pagamento de um alto imposto. Nem mesmo a cerveja, a queridinha dos brasileiros, é permitida. A sede só é saciada através da água. Produto que é importado por eles. A água é um líquido precioso por lá, tanto que eles a produzem, em parte, através de usinas de dessalinização da água do mar.

Percorrendo as imensas avenidas, bem planejadas, avistamos centenas de edifícios gigantes com uma arquitetura moderna e arrojada. Subimos no mais alto do mundo, o Burj Khalifa, com 828 metros de altura. Você se sente pequenino, quando, próximo da sua entrada, ao olhar para cima e tentar enxergar o seu último andar. Ele possui um elevador tão rápido, onde os milhares de turistas que fazem a reserva, de sua utilização, com no mínimo um mês de antecedência, sentem-se em um foguete.

Ao chegar no topo do Burj, a sensação é de estar pousando na lua. Lá do alto, ao olhar para baixo, é como se estivesse enxergando um mapa pequeno da cidade em um papel, tal é a distância para o solo.

Existem prédios de diversos formatos, inclusive um hotel que se assemelha a um barco a vela. Esse prédio está situado próximo a entrada de um condomínio de ilhas artificiais. Quando vistas de cima, as ilhas formam o desenho de uma imensa palmeira.

Os sheiks souberam investir suas riquezas, originadas da abundância petrolífera, na construção de uma cidade suntuosa.

A religião islâmica é praticada pela maioria dos residentes. Eles fazem o salat voltados para Meca, pelo menos 5 vezes ao dia. As mesquitas disparam suas sirenes para lembrá-los, em cada horário estabelecido. Onde estiverem, ao ouvir o som delas, eles se dirigem às mesquitas ou, a espaços reservados para suas orações obrigatórias.

A culinária local é diversificada e conquistadora. Os quibes, esfirras, charutos, tabules, falafel, tahine, homus, kafta e todas as demais iguarias típicas são elaboradas com diversos temperos de todo o mundo. Dubai sempre foi um porto de passagem de navios do oriente, que seguiam para o ocidente, alguns deles, carregados de especiarias.

Visitamos o deserto e conhecemos o camelo, o principal meio de transporte desse ambiente árido. Mas a modernidade permitiu que um outro veículo pudesse ser utilizado por lá. Andamos em uma pick-up especial, com os pneus murchos, subindo e descendo as areias, quase vermelhas, como se fossem grandes quebra-molas.

Em cada local que conhecíamos, a reação da torre de babel brasileira era uma. Ao final da aventura no deserto, com o sol se pondo, já cansados e suados, fomos conhecer um acampamento de nômades. Um local para descansar e beber água, provido de tendas, no piso de areia. Mas esse, em especial, era para turistas, portanto, encontramos uma diversidade de comidas típicas, água, sucos e, a cerveja Heineken.

Foi um momento mágico para os brasileiros, enquanto aguardávamos um show típico.  O mineiro exclamou bem alto: “eita trem bão”, o gaúcho falou: “bá tchê”, o baiano deu risada, falando calmamente: “é massa”, o paulista arregalou os olhos e disse: “mó legal” e o carioca gritou: “isso é maneiro”.

Entretanto, o mineiro ao ver o preço da cerveja falou: - uai, tá muito caro sô! Ele ficou indignado e exclamou: - como pode uma lata de 350 ml custar 5 vezes mais caro, que pago no supermercado do meu bairro? Tive que lembrá-lo que ele estava no deserto, que para uma cerveja chegar até lá, além do custo do transporte, tinha um imposto alto, taxado pelo governo. Claro que ele comprou a cerveja e, provou que como um bom mineiro, conseguiu degustá-la no deserto.

É assim, viajar é experimentar, é sentir, é viver situações novas, é ver o que os povos são capazes de fazer, é ouvir sons inusitados, é saborear iguarias com temperos particulares, é sentir o tempo e o vento, é se queimar no sol, é andar muito, é subir e descer escadas e ladeiras, é degustar bebidas típicas, é se perder em mercados, é admirar obras de artes, é se contagiar com a cordialidade das pessoas desconhecidas, enfim, é se emocionar.

Viajando, você descortina o desconhecido, arquivando suas sensações em sua memória.

Ao entender como cada povo vive, percebemos que as diferenças entre nós são apenas os costumes, sotaques e dialetos de cada região do mundo.

Outubro 2023, Marcos A F Franco

Cego, Surdo e Bem-casado

Enquanto caminhava na esteira da academia, ouvi de um personal trainer uma afirmação curiosa: “O casamento afeta os sentidos, especialmente ...