terça-feira, 19 de setembro de 2023

O fogo do rio Yarra

Andar é o que mais faço quando estou turistando. É a melhor forma de conhecer e sentir as cidades. Caminhar pelas calçadas, atravessar ruas, descobrir jardins, parques, igrejas, museus, lojas, cafés, restaurantes e contatar pessoas aguçam o meu perfil explorador. Cada detalhe visualizado, tocado e degustado fica registrado em minha memória e definem as características desse meu novo lugar.

Foi assim que fiz quando estive em Melbourne, a cidade fundada em 1835 que herdou o nome de um ex primeiro-ministro e mentor da rainha Vitória. Caminhei por vários cantos dessa cidade encantadora e, em especial pelas margens do rio Yarra.

Esse rio foi sábio. Ele nasce nas Cordilheiras de Yara. Seu curso segue por 250 quilômetros até a Baia dos Hobsons, em Melbourne, onde desagua. Ele, desde a sua formação, já sabia que as terras ao seu lado iriam ser habitadas por aussies determinados. Sabia que eles iriam cuidá-lo e enfeitá-lo.

Pela manhã, tarde ou noite, em três quilômetros de ambas as margens, os turistas e os melbourianos se revezam frequentando as inúmeras atividades que o Yarra oferece. Em uma das margens encontra-se a Flinders Street Station, a principal estação de trens da cidade, que também se conecta a maior linha de bondes do mundo.

A pé, de bicicleta, patins ou de barco, andando pelo Yarra, desde que o tempo instável da cidade permita, se consegue admirar os jardins, a arquitetura arrojada dos prédios, visitar o Aquário, se divertir no Crown Cassino, participar de feiras no Centro de Convenções, fazer compras em inúmeros shoppings, se perder pelo paraíso gastronômico, levado pelos múltiplos aromas produzidos por infindáveis restaurantes e chegar ao Melbourne Park.

A realização dos Jogos Olímpicos de 1956 propiciaram um grande desenvolvimento para a cidade. É no Melbourne Park onde se concentram as principais e impecáveis instalações esportivas, e que também abrigou as Olímpiadas, cujo feito de Ademar Ferreira da Silva está lá, cravado em uma placa de granito. Ademar, nosso grande recordista mundial do salto triplo, nessa oportunidade, sagrou-se bicampeão olímpico. Foi um exemplo de atleta e pessoa.

É nesse parque que se encontra o Melbourne Cricket Ground, o maior estádio da Austrália, considerado um monumento especial para os australianos, onde se pratica o Futebol Australiano, Rugby e o Cricket, e que abriga o lindo Museu do Esporte. Também é lá, que se encontram as grandiosas instalações de tênis, onde é realizado, anualmente, o Australian Open, um dos quatro maiores torneios de tênis do mundo.

Além das margens, o rio Yarra possui várias pontes, dentre as quais, uma para pedestre, chamada Footbrige. Ela tem o sentido transversal, construída com um arco branco sobre a sua extensão. Atravessá-la é uma viagem pelo mundo. A cada passo caminhado, em sua proteção de vidros, se lê o nome da cidade de um país. Mais um sinal de que essa cidade do estado de Victória é acolhedora e global.

Demonstrando o seu calor em receber as pessoas, o Yarra, em uma de suas margens, possui algumas colunas, com dez metros de alturas que, ao início da noite, lampejam fogos barulhentos, lançando chamas para o alto, assustando e aquecendo os desavisados.

Dificilmente, quando se está em Melbourne, se deixa de ver e cumprimentar o Yarra. Ele é majestoso, vaidoso e egoísta. Ele valoriza sua beleza. Durante os dez dias que lá estive, não deixei de vê-lo e explorá-lo. Ao me despedir, ele chamou o sol, os pássaros e se vestiu de azul espelhando toda beleza existente ao longo de suas margens. Me disse: foi bom conhecê-lo, volte sempre, mande lembranças para os seus amigos e peça que eles venham me conhecer.

Julho 2023, Marcos A F Franco


 

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