Imagine se a proclamação da Independência do Brasil fosse hoje!
Duzentos anos depois do Grito do Ipiranga, ocorrido em 1822, o mundo se
transformou. Comportamentos, economia, tecnologia, tudo é diferente. Com
certeza esse capítulo da nossa história, hoje seria um grande evento de nível
internacional.
Imagino o local no Riacho do Ipiranga todo preparado, ornamentado, com um
grande palco decorado, sistema de som sofisticado, estacionamento para receber
ônibus, automóvel, motos. Milhares de pessoas chegando para testemunhar um dos
maiores atos da história brasileira. Dariam total liberdade para os
organizadores. Liberdade, a palavra do dia.
Teria drones para registrar tudo em fotos, capturando cada movimento.
Assim, o artista Pedro Américo, o futuro autor do quadro da independência,
poderia perceber mais detalhes, com precisão e cores, de todo o contexto do
evento. Com tantas testemunhas, talvez organizassem um concurso para Quadro da
Independência e, o Américo “tomaria tinta”.
Haveria gente a favor e gente contra esse grito planejado. Todos vestidos
a caráter, com suas fantasias fazendo referência a alguma reivindicação ou
protesto. Figuras como o Batman, Super-homem, Mulher-aranha, disputariam o
melhor local para ver Dom Pedro falar. Seria como um grito de Carnaval.
Apareceriam faixas de manifestações a favor e contra essa festa. Seria a
polarização entre Brasil e Portugal. Faixas como: Fica Pedro, Volta para
Portugal, Independentes do Brasil, Abaixo a Independência, Grita Pedro, Brasil
independente, vai para casa Pedro, Cadê a Domitila. Todas elas enfeitando o
grande cenário montado na terra da garoa. Muito parecido com as torcidas em um
jogo de futebol, entre o Flamengo e o Vasco da Gama, no Maracanã.
A indústria da comunicação estaria toda instalada no local, com cabines
de comentaristas, conjecturando os ganhos ou perdas com o Grito do Príncipe. Todos
estariam tentando descobrir por que o seu pai Dom João VI foi embora sem o
Pedrinho e, agora, quer que ele volte a Portugal.
Nas redes sociais, teriam muitos comentários da influência da Princesa
Leopoldina sobre o jovem Príncipe de 24 anos. Teriam mensagens sobre ela
opinando ao Príncipe que se ele não gritar, vai dar ruim para o Brasil. Muitos
fakes envolveriam a Marquesa de Santos e o Príncipe. Onde eles estariam?
Teriam postagens sobre a influência de José Bonifácio, presidente do
Conselho de Estado, mencionando que este último aprovou a Independência. Postagens
de todos os cantos do Brasil, em sua maioria, querendo a Independência do País.
Outras mencionariam que o Brasil contrairia uma grande dívida junto à
Inglaterra, o grande parceiro de Portugal. E ainda que haveria resistências no
Nordeste. O povo gosta de uma fofoca!
Os jornais e as mídias sociais acompanhariam a motociata que partiria bem
cedo de Santos, liderada por Pedro, que estaria lá há alguns dias. Coincidentemente
Santos é conhecida como a terra da caridade e da liberdade. Também a terra da
Marquesa de Santos.
Ele receberia uma mensagem da Princesa Leopoldina dizendo que tinha
assinado o Decreto da Independência e já estava tudo pronto para o Grito. Ela era
uma mulher decidida, a frente do seu tempo.
Na véspera, Pedro iria ao Shopping comprar a sua indumentária: botas,
bataclava, capacete, luvas, macacão, jaqueta. Antes, também, iria ao
cabelereiro aparar o seu cabelo e a sua estilosa costeleta. Um verdadeiro
motociclista. Pedro seria um frequentador assíduo de Shoppings Centers.
A concentração seria feita na praça da Independência, uma homenagem aos
irmãos Andradas. A ideia é que a passagem das motos congestionasse a Rodovia dos
Imigrantes, que liga a Baixada Santista ao planalto Paulista, de tal forma que
não fosse possível enxergar o seu asfalto. Ao longo do percurso mais
motociclistas, das cidades do grande ABC, iriam agregar o ronco e a buzina das
suas motos à quilométrica caravana. Que barulhada que seria!
Os apostadores estariam trocando números, entre si, sobre o horário da
chegada à São Paulo e, sobre a quantidade de motos. Pedro viria cercado por
batedores da corte, com motos especiais de última geração.
Em sua parada no posto de combustível ao pé da serra, em Cubatão, Pedro aproveitaria
para tomar guaraná e comer pastel. Se deixaria fotografar pelos seus fãs e faria
o V da vitória com os dedos. Forçaria um sorriso a pedido do Chalaça, seu
secretário particular. Simpatia não era o forte do jovem herdeiro.
Quando Dom Pedro chegasse em São Paulo, antes de ir para o Riacho do
Ipiranga, passaria pela Igreja da Boa Morte. Ela é conhecida como a igreja das
boas notícias, localizada na Rua do Carmo, bem no centro da cidade. Os
motociclistas seriam recebidos com uma salva de sinos e com a benção do Cardial
de São Paulo. Tudo bem programado e abençoado.
Quase no final da tarde do dia 7, chegariam no Riacho do Ipiranga. Todas
as motos fariam um corredor imenso para que Dom Pedro I passasse por ele, em
direção ao palco. Depois, elas seriam estacionadas em volta do local do
espetáculo, formando um grande círculo.
Dom Pedro, exausto, passaria em um banheiro, devido a uma dor de barriga
e depois subiria no palco, interrompendo o show de cantores sertanejos.
O povo, com algumas exceções, o aclamaria. Ele, tocado pela emoção,
colocaria a mão no coração, agradeceria gritando bem alto:
- “Gratidão”.
Na sequência diria:
- “Boa tarde meu povo”. Todos responderiam da mesma forma.
Diria em seguida:
- “Hoje é o dia mais especial que o Brasil já teve. Ficará registrado definitivamente
em sua história. Muitos falarão deste grande dia, mas nem todos dirão a
verdade”.
Em seguida, levantando a Bandeira do Brasil com os seus dois braços
esticados diria:
- “Viva a Independência e a separação do Brasil de Portugal. Juro
promover a liberdade do Brasil. Independência “sem” Morte.”
Ele, com o seu celular, registraria o povo gritando:
- “Hei, hei, hei, Pedro é o nosso rei”.
Em seguida ordenaria a sequência dos shows e liberaria a distribuição de
tutu de feijão para todos.
No dia seguinte os jornais de todo o mundo estampariam:
“Dom Pedro separa o Brasil de Portugal”,
“O Brasil está livre, mas deve aos Ingleses”,
“Dom Pedro, fica e liberta o Brasil”,
“Portugal não reconhece a independência do Brasil”,
“O Brasil deixa de ser colônia”,
“O Brasil troca a cor vermelha pela amarela”.
Na mídia social poderia aparecer:
“Brasil está livre, e Pedro também”,
“O Brasil terá a sua bandeira”
“Brasil livre, e empregos garantidos”,
“Marquesa de Santos ganhou na loteria”,
“O rei vai ser imperador”,
“Os baianos não querem o Brasil livre”,
“Pedro, de rapazinho a Imperador”,
“Portugueses do Brasil, o general Labatut vai para o
nordeste, cuidem-se”.
“Pasmem, a moto do Pedro era uma CG 125 da Honda”.
“O tutu de feijão não foi suficiente para toda a tropa”.
“Quem serão os libertados?”
“Dom Pedro fará o Hino da Independência”
Agosto 2022, Marcos A F Franco
Publicado no livro Séculos de Pátria, Fronteiras e Arte, Setembro 2022

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