Enquanto
caminhava na esteira da academia, ouvi de um personal trainer uma afirmação
curiosa: “O casamento afeta os sentidos, especialmente os masculinos!” E ele não
parou por aí, compartilhando episódios da sua vida conjugal.
Veja a audição.
Ela se torna preguiçosa, desenvolvendo uma surdez seletiva e protetora. Sou
capaz de ouvir o estalo de uma tampinha de cerveja se abrindo a três
quarteirões, mas não consigo decifrar a frase: “Precisamos conversar sobre a
cor das cortinas”. Deve ser um fenômeno biológico: após cinco anos, a voz da
minha esposa alcançou uma frequência que meu cérebro masculino simplesmente
ignora — como uma chuva suave. Eu balanço a cabeça como se estivesse escutando,
mas minhas sinapses estão, na verdade, mergulhadas no lance de gol que decretou
a derrota do meu time.
Empolgado,
o personal continuou: “Minha esposa, invariavelmente, afirma que estou perdendo
a visão”. Diz que consigo identificar uma jogada de impedimento na TV, mas sou
incapaz de enxergar a manteiga que está bem diante do meu nariz na geladeira.
"Não está aqui!", eu grito. Ela caminha até a cozinha, move um pote
de iogurte dois centímetros, e a manteiga surge como num truque de mágica do
David Copperfield. É feitiçaria doméstica.
Como se não
bastasse, meu olfato começou a falhar, especialmente após a chegada dos filhos
e das fraldas. Minha esposa frequentemente me alertava sobre a presença delas
na sala.
Quanto ao
paladar, tornou-se diplomático. Após anos ouvindo "você não sente o gosto
do coentro nessa comida?", desisti de ter papilas gustativas próprias. Passei
a comer jaca achando que era frango e sorria, porque aprendi que o melhor
tempero da vida a dois não é o sal, mas a paz.
Por fim, o tato.
Com o tempo, ele desapareceu nas manhãs de domingo em que meu braço servia de
travesseiro para ela. O braço formigava, o sangue parava de circular, a
gangrena parecia iminente, mas eu não me mexia. Preferi arriscar perder o braço
a despertar a fera.
Dizem que o
amor é cego, mas ninguém avisa que ele traz surdez, sinusite crônica, perda de
apetite e uma dormência generalizada nos braços.
No fim das
contas, a perda dos sentidos é um mecanismo evolutivo. Se o homem mantivesse
todos os sentidos aguçados, não sobreviveria a uma tarde de sábado no shopping
ou a uma discussão sobre quem deixou a toalha molhada em cima da cama. O
casamento ajusta os sentidos para o modo "sobrevivência irônica".
Janeiro 2026, Marcos A F Franco
